A AEP realizou em novembro a entrega do Prêmio Professor do Ano. Depois de consagrar nomes importantes da Escola Politécnica como o Prof. João Antônio Zuffo, Prof. Mario Franco, Prof Eitaro Yamane, entre outros, este ano o homenageado foi o Prof. Plínio Benedicto de Lauro Castrucci, engenheiro mecânico-eletricista 1955.
Para a entrega do prêmio a mesa contou com a presença do Eng. Cícero Couto de Moraes, saudador da noite e amigo de Castrucci; Eng. Kamal Mattar, presidente da Associação dos Engenheiros Politécnicos; Prof. Dr. Ivan Gilberto Sandoval Falleiros, diretor da Escola Politécnica; e José Roberto Cardoso, vice-diretor da Escola Politécnica.
O também professor da Poli, Cícero Couto de Moraes, ressaltou a singularidade de uma carreira de grande sucesso. Castrucci ingressou na Escola Politécnica em 1951, sendo aprovado em 3º lugar no vestibular, a partir daí teve ao longo da vida acadêmica sua competência reconhecida por inúmeras premiações, títulos, participações em bancas de doutorado, mestrado e livre docência. Segundo Moraes seria preciso a noite toda para citar as diversas produções acadêmicas e no setor privado.
Entre as empresas em que trabalhou o Eng. Castrucci teve grande participação na linha leste-oeste do metrô de São Paulo, sendo que alguns de seus projetos – realizados na implementação da linha – ainda estão em funcionamento, não tendo sido substituídos nem mesmo após toda a modernização dos sistemas, devido à confiabilidade e qualidade.
Destacam-se em meio às suas publicações os trinta e cinco artigos nacionais e internacionais (não apenas relacionados à engenharia, mas também na área médica e econômica), participações em muitas obras e diversos livros utilizados em universidades renomadas. Trabalhando em novo projeto, o Engenheiro lançará outro livro em 2010.
Versátil, Castrucci destaca-se também através de obras de arte. Pintou mais de trinta gravuras registrando memórias de viagens, algumas das quais premiadas em eventos artísticos. Isso mostra uma característica marcante do Engenheiro, a grande desenvoltura que não se restringe ao lado racional de sua profissão, mas expande-se às atividades artísticas.
Cícero Moraes parabenizou o amigo pelo merecido Prêmio e passou a palavra ao Eng. Kamal Mattar. O presidente da AEP foi colega de turma do Prof. Castrucci e disse ter ficado muito satisfeito pela escolha do Prof. Castrucci entre a lista tríplice fornecida pela Escola Politécnica. Mattar parabenizou o amigo e entregou-lhe a placa em sua homenagem.
O homenageado fez seu discurso (que pode ser conferido abaixo) agradecendo a todos pelo prêmio e pela presença. Ressaltou a surpresa por ter sido escolhido, pois se considera um politécnico, não um mestre. Apesar disso ficou extremamente honrado pelo prêmio, após tantas realizações desde que ingressou como estudante na Escola Politécnica. Para Castrucci um bom profissional deve aprender sempre e nunca abandonar a qualidade de aluno, sendo que o professor tem a necessidade de aprender rápido e transmitir seus conhecimentos.
Em seu discurso foi marcante a presença de sua formação ligada às ciências humanas, com conceitos filosóficos associados aos projetos de engenharia. A eficiência de seus trabalhos, sempre ligados à qualidade e relevância para empresas e sociedade em geral, estão sempre permeados pela ética social e uma filosofia humanística.
Após sua fala o evento foi encerrado com o diretor da Escola Politécnica, Prof. Dr. Ivan Gilberto Sandoval Falleiros. O Professor, para Falleiros, é um exemplo não somente através das obras, mas também pelas grandes aulas ministradas.
Prof. Falleiros finalizou sua fala enfatizando a importância de homenagear os grandes mestres, que não podem ser esquecidos pela Escola, e a AEP que tomou a iniciativa da criação do prêmio.
A Associação dos Engenheiros Politécnicos ofereceu aos presentes um coquetel em sua sede, que reuniu várias gerações de politécnicos, presentes para homenagear um professor sempre admirado e respeitado. Parabenizamos mais uma vez o Prof. Dr. Plínio Benedicto de Lauro Castrucci pelo prêmio conseguido por mérito pessoal e deseja que o professor continue a nos presentear com importantes projetos por muito tempo. Agradecemos a presença dos professores, alunos e ex-alunos durante a homenagem.
O Professor Castrucci fez o seguinte discurso:
Exmo prof dr Ivan Faleiros, Diretor da Escola Politécnica
Exmo prof dr José Roberto Cardoso, Vice-diretor da Escola Politécnica
Engo Kamal Mattar, presidente da Associação dos Ex-alunos da Escola Politécnica
Meu caro Cícero Couto de Moraes
Prezados colegas e amigos
Senhoras e senhores
Agradeço ao Cícero por me apresentar com tanta dedicação e tantos elogios; mas recomendo que se dê aos elogios um grande desconto, em função da amizade que temos em comum, amizade sedimentada por muitos anos de convívio, no ensino e na indústria. Ambos partilhamos uma mesma visão das pessoas, da engenharia, do ensino e do mundo. Ele, sim, é um professor de excepcional vocação, que tenho observado desde quando, a seu convite, passei a colaborar no projeto Rockwell-EPUSP, em teoria de controle de eventos discretos.
Recebo este título de professor do ano ciente de seu duplo significado, pois primeiro fui incluído por alguns docentes da Escola em uma lista tríplice, e depois, tive o nome escolhido pelos diretores da AEP. Agradeço de coração a todos, que considero aqui representados pelo nosso prezado diretor Ivan Faleiros e pelo caro colega presidente Kamal Mattar. Aproveito para prestar minha homenagem ao Kamal, extraordinário condutor dessa importante iniciativa que é a Associação dos Ex-alunos.
Ser homenageado como bom professor me surpreende, porque a rigor tenho vestido muito mais a camisa do politécnico, do engenheiro e do nacionalista, do que a camisa do mestre. Mas, se assim agindo tornei-me afinal um bom professor, ótimo; resta dar graças a Deus por me fazer útil nessa que é sem dúvida a mais elevada das profissões.
Mas, o que é, afinal, um bom professor? Em busca de resposta, recordei os muitos exemplos que conheci, aqui na Poli, na Física e na Matemática da USP, e no Imperial College. Percebi que seus estilos diferem demais, que é muito pequena a intersecção dos conjuntos das suas qualidades.
Consegui identificar apenas três qualidades comuns:
1ª. a disposição de aprender sempre, com entusiasmo, de ser um eterno aluno;
2ª. o altruísmo, uma decorrência das qualidades morais, do amor ao próximo.
3ª. a capacidade, sintetizada na célebre definição de Guimarães Rosa:
“Mestre, não é o que tudo sabe, mas o que depressa aprende.”
Esta é uma definição que não me canso de admirar, devido à sua notável presciência: nas últimas décadas, quando o pensamento humano vem descrevendo tão inacreditável e maravilhosa trajetória, aprender depressa tem sido vital para o professor.
Das três qualidades estou seguro de ter a primeira, a ânsia por aprender. Como método de estudo sempre procurei, e dei especial atenção, àquelas idéias realmente criativas, idéias-eureka, in-sights, que são geralmente qualitativos e intuitivos. É eficiente, além de altamente estético e didático, ordenar conhecimentos começando por essas idéias-eureka. Pretendo mostrar, a seguir, aonde me levou o entusiasmo pelo conhecimento de idéias originais. Não vou abusar da paciência dos presentes falando da árida automática, das idéias de Nyquist, Wiener, Bellman, Kalman, Liapunov, Wonham e tantos outros.
Vou percorrer, de leve, à vol d’oiseau como diziam os intelectuais de antigamente, quatro grandes temas: o conceito de tempo, a lógica da ciência, a gestão da produção e a ética social.
O Tempo. Foi pelas aulas do prof Marcelo Damy de Sousa Santos, na Física da USP, lá por 1950, que me iniciei no mistério do tempo. Numa notável disciplina sobre métodos de medida em Física, ficou evidente que o tempo é diferente porque é abstrato e tem de ser aceito como conceito primitivo, como ponto e reta em matemática. O tempo é diferente das outras variáveis porque tem “mão única”, isto é, um único sentido de percurso. Na teoria da mecânica, ele surge no exato momento em que se enuncia a equação de Newton na forma diferencial; e a partir daí, tempo e movimento ficam intrinsecamente ligados. Notem que, em qualquer relógio, medir o tempo exige medir uma variação de posição ou de outra variável física. Imaginando um universo absolutamente imóvel, não haveria como sentir nem como medir o decurso do tempo...
Para nós, engenheiros de controle, o tempo está sempre no foco das atenções: rapidez de resposta ao comando e rapidez de resposta a perturbações são vitais; em nossos gráficos o está presente o tempo ou está a freqüência.
Mas, nos albores do século XX, uma idéia radical veiu aumentar o mistério do tempo: o conceito de um tempo universal, absoluto, teve de ser abandonado. Após os cuidadosos experimentos de Michelson, 1881 e 1887, provando que a velocidade da luz é invariante, surgiram na Física sérios impasses. A saída foi a idéia da relatividade, pela qual tempo e espaço são relativos, dependem da velocidade do sistema de referência em que são medidos...
E, dentre os filósofos, o tempo tem suscitado argumentos mais curiosos ainda. Já Aristóteles, indagando se o tempo existia ou não, dizia: “uma parte do tempo, o passado, existiu mas não existe mais, enquanto a outra parte, o futuro, existirá mas não existe agora. “Agora” não é uma parte do tempo, é uma fronteira entre passado e futuro... Naturalmente, algo que é feito de duas partes que não existem não pode ser real...”. E a conclusões similares têm chegado gigantes do pensamento como Spinoza, Kant, Hegel e, no século XX, McTaggart e outros...
Mas temos ainda o tempo psicológico, no qual horas alegres são curtas, horas tristes são longas. Contrariando toda a argumentação filosófica, ninguém acha irreal o tempo passado de sua vida, demarcado que é por emoções e imagens. Como é concreto, real, enorme o tempo decorrido desde que meus netos eram pequenos e me faziam ver o mundo com a sua ingenuidade! Quanta saudade!
Para os poetas, o mistério do tempo é um verdadeiro play-ground; é de Vinicius de Moraes esta jóia enigmática: “Morro ontem. Vivo amanhã. O meu tempo é quando.”
Passo ao tema da Lógica da Ciência. No tempo de estudante, diziam-nos que havia dois métodos científicos: o dedutivo e o indutivo. No dedutivo, os enunciados ou teoremas, eram verificados por meio das rigorosas leis da lógica formal, a partir de conceitos primitivos e de outros teoremas; é o método típico das matemáticas. No método indutivo, nas ciências naturais, tinham-se as clássicas fases: observação, hipótese e experimentação; se esta confirmasse a hipótese, a hipótese seria lei e expressão da verdade.
Só que, na Física do século XX, as observações foram ficando cada vez mais indiretas e as teorias, cada vez mais audaciosas: a luz, no efeito foto-elétrico, comportava-se como contendo pacotes de energia, fótons, partículas, e não como onda eletromagnética contínua; espaço e tempo tinham de ser relativos à velocidade do sistema em que eram medidos; no mundo sub-atômico era necessário utilizar a misteriosa mecânica quântica; ao medir o par posição-momento de partículas elementares, alguma incerteza era intransponível...
Os físicos entraram em crise, desconfiando de seus resultados e até mesmo da lógica da ciência. Foram salvos pelas idéias extraordinárias do filósofo austríaco Karl Popper, numa revisão radical da lógica da ciência. Ele mostrou que o tal método indutivo das ciências naturais não era mesmo confiável: todo experimento positivo é um caso particular, do qual nunca se pode afirmar uma regra geral, uma verdade. E propôs um novo método, dito de prova dedutiva. E por fim estabeleceu que a idéia de que a ciência não pode almejar constituir-se de verdades, ela deve sim constituir-se de teorias provisórias. Cada teoria é aceita como válida, apenas enquanto não refutada por experiências (não falseada, not falsified). Em ciência, há entre as teorias uma competição darwiniana e permanente.
Pois foi com esta nova lógica da ciência que a teoria da relatividade geral se firmou definitivamente. Einstein indicou uma possível prova, no campo da astronomia: se sua teoria estivesse correta, durante um eclipse total do sol, haveria um desvio de 0,875 de segundo de arco, na luz oriunda de uma certa estrela ao passar perto do sol. O que foi verificado, no Nordeste brasileiro, em 1919...
Sobre Gestão da Manufatura. Este é um problema prático difícil, de enorme valor econômico. Envolve processos internamente determinísticos que são afetados por vários tipos de acaso, no tempo e nas quantidades; as teorias são estatísticas e complexas. Entre 1960 e 70, na Toyota, Japão, nasceu uma revolução ideológica: antes enfatizava-se a economia no custo da operação de cada máquina; depois, a idéia central passou a reduzir o desperdício associado a estoques, principalmente a estoques intermediários, entre máquinas. Os novos métodos chamaram-se de “stockless production”, produção sem estoques, “just-in-time” e “kanban”. Vinte anos depois, a revolução já atingia a imensa maioria das fábricas no mundo; indicadores de produtividade como prazo de entrega, área de fabricação e de estocagem e custo industrial, melhoravam por fatores de 5 a 10!
Finalmente, Ética Social. Como se sabe, Ética é o ramo da Filosofia que trata da felicidade do ser humano, em sentido íntimo e profundo; recomenda, para ser feliz, fazer o bem. E Ética Social é o estudo das regras de ação individual e coletiva que levam ao bem-estar da sociedade. Os fundamentos da Ética Social encontram-se no chamado direito natural, tendo sido corroborados por vários posicionamentos da Igreja Católica, desde a encíclica Rerum Novarum, de 1896.
A idéia central é a seguinte: o ser humano é excepcional, quando comparado a todos os demais seres da natureza: é capaz, como nenhum outro, de raciocinar, de sentir, de julgar, de se comunicar, de criar tecnologia, ciência, filosofia, música e religião; é excepcional até na habilidade manual. O respeito a esta excepcionalidade, que pertence a qualquer pessoa, independente de raça, idade, sexo, cultura, etc, chama-se dignidade da pessoa. Tal respeito é o primeiro princípio da Ética Social.
É fascinante ver como, com este conceito tão evidente, se podem justificar os outros cinco princípios da Ética Social, que apenas nomeio. O direito de propriedade. A primazia do trabalho sobre o capital. A primazia do bem comum. O dever de solidariedade. O respeito à subsidiariedade.
E tais princípios se auto-regulam, equilibram-se muito bem uns aos outros; por exemplo, o direito de propriedade é naturalmente limitado pelo dever de solidariedade...
Como seriam reduzidos os problemas do mundo, se se realizasse a utopia da efetiva e universal prática da Ética Social!
Retorno agora ao tema do bom professor, pois acho que é um de seus deveres precípuos ensinar Ética, em todos os níveis. É dever especialmente nosso, dos professores de engenharia. O nosso aluno e futuro engenheiro, para realizar-se, terá de mergulhar no ambiente da empresa, da sociedade e dos negócios, o que muito lhe exigirá na vertente ética.
Nesse ambiente, se alguns desejam lucro fácil, se outros desejam prazos inviáveis e baixos custos, se muitos são apáticos ou indiferentes, se os clientes têm interesses superficiais, se a competição se baseia apenas em preço, se há entraves burocráticos, é do engenheiro que a sociedade espera qualidade e, principalmente, segurança. Notem como alguns de nós somos cobrados pela imprensa, a cada acidente de proporções.
Para atender a essa esperança só há um caminho para o engenheiro: empenhar-se no projeto correto, na comunicação aberta, na defesa firme da verdade, na documentação séria, no cumprimento dos contratos. Portanto trilhar o caminho do comportamento ético.
E assim concluo as divagações a que me propus inicialmente.
Agradeço a todos pela presença, e também pela paciência com que fui ouvido.