Mulheres na Energia

O evento ‘Mulheres na Energia’, realizado pelo Clube Minerva, em parceria com a Wids-USP e a WIN-USP começou com temas centrais para o mercado de trabalho. No primeiro dia, profissionais atuantes e com profundo conhecimento de causa fizeram apresentações sobre ‘Mulheres e Liderança’ e sobre ‘Transformação Digital e Inovação’.

Mulheres na EnergiaAssista aos vídeos do evento nos links abaixo:
Dia 1 – Liderança Feminina no mercado de Energia | Inovação e Transformação Digital.
Dia 2 – O futuro das Energias Fósseis | Energias Renováveis no Brasil e no Mundo.
Dia 3 – Workshop: Case de DataViz na Energia – Power BI.

 

Mulheres e Liderança
A presença de mulheres em cargos de liderança está em ascensão, porém a desigualdade de gênero ainda é forte e o caminho a ser percorrido até a equidade é longo. De acordo com Mariana Veloso, líder de RH do grupo Total Eren, mulheres ganham em média 14% a menos que os homens e essa diferença aumenta nos cargos de liderança.

Para Mariana, a percepção de que é necessário agir para acelerar a mudança dessa realidade aconteceu ao perceber que não se trata de favorecer ou fazer mais pelas mulheres, mas de não fazer menos, além de preparar as profissionais de forma adequada.

Entre as dicas da administradora para as profissionais, ela destaca a necessidade de participar ativamente dos processos das empresas. Por mais que seja difícil, é um caminho inevitável, já que de acordo com uma pesquisa de Harvard, muitas mulheres não chegam à liderança pois desistem antes do tempo necessário.

Superar dificuldades socioculturais também é necessário, já que homens costumam ser preparados para ter autoconfiança, enquanto as mulheres acabam sofrendo com a síndrome de impostor. Mencionada algumas vezes ao longo do evento, a síndrome é um termo psicológico para indicar a insegurança e questionamento de uma pessoa diante das próprias conquistas e méritos.

Mariana Veloso finalizou a apresentação orientando as mulheres a saber o valor do próprio papel. Além de servirem de exemplo para outras mulheres, já que é recente a referência de figuras femininas em cargos de liderança, as mulheres costumam ter soft skills fundamentais para o desenvolvimento de projetos. As empresas que já perceberam essa vantagem investem na igualdade e já colhem os frutos desse investimento.

Para Roberta Valezio, engenheira civil e líder do time de people partner na empresa Neon, o futuro é feminino, mas é preciso pensar no presente, já que mesmo os estudos mais otimistas apontam que, no ritmo atual, ainda leva quase um século para a equidade de gêneros no mercado de trabalho.

A engenheira lembrou que nosso cérebro segue padrões identificados. A característica que trouxe vantagens para o desenvolvimento da espécie também favorece a repetição de padrões injustos, cultivados desde a infância, com a diferenciação de brinquedos de acordo com o gênero, até a vida adulta, com a expectativa da vida seguindo um roteiro de cinema ou uma novela.

Em seu exemplo pessoal, Roberta afirma nunca ter se encaixado em padrões e desde criança exibia um perfil questionador diante dos estereótipos sociais. Isso a permitiu desenvolver qualidades associadas às mulheres, mas sem se prender a padrões que dificultam o crescimento profissional.

De acordo com Roberta, o perfil desenvolvido pelas mulheres com base nos padrões sociais acaba fazendo com que a negociação salarial não seja tão eficiente e a insegurança atrapalhe a atuação em um mercado competitivo. Com isso o crescimento acaba prejudicado.

No debate promovido após as apresentações, com as duas palestrantes respondendo às perguntas, ambas concordaram que apesar do mercado de trabalho ainda ser desigual e muitas vezes preconceituoso, o cenário vem mudando e os resultados rápidos e positivos da diversidade tendem a impulsionar essa mudança.

Segundo Roberta, as mulheres precisam formar uma rede de apoio, para desconstruir preconceito e passarem confiança umas às outras. Desta forma, todas saem fortalecidas, mesmo em um ambiente competitivo. Ainda que situações como o assédio e o preconceito sejam intoleráveis, a engenheira defende que em situações de conflitos de gêneros é preciso paciência e uma postura didática com aqueles que ainda se mostram resistentes às mudanças.
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Transformação Digital e Inovação
Na sequência do “Mulheres na Energia”, para abordar o atual nível de transformação digital e inovação das empresas, Bárbara Sansevero, engenheira de modelagem de processos na Total S.A., apresentou o conceito ‘Vuca’ (volatility, uncertainlity, complexity, ambiguity).

Atualmente a engenheira vive na França, onde segundo ela houve um aumento expressivo de carros elétricos em 2020, muito acima de qualquer previsão do mercado. No mesmo país, enquanto o uso de celulares chega a praticamente 100% da população, o uso de tablets contraria a previsão das empresas, pois vem caindo nos últimos anos.

Em meio a essas mudanças de consumo difíceis de serem previstas, Barbara aponta que 82% das empresas francesas em 2018 diziam não estarem preparadas para as mudanças do mercado. É possível que o índice tenha mudado nos últimos três anos, já que são demandas urgentes e dinâmicas.

Cada vez mais os consumidores querem soluções personalizadas para suas necessidades, o que faz com que as empresas tenham desafios maiores e mais diversificados. Tudo isso exige não só uma mudança tecnológica, mas também cultural dentro das corporações.

Uma das metodologias que vem ganhando espaço no mundo corporativo, segundo a engenheira, é o design thinking. A ideia de evitar desperdícios e não partir de princípios pré-estabelecidos é adequada ao tipo de demanda do mercado atual. Através do design thinking os profissionais atuam livres de ideias pré-concebidas, que muitas vezes não se encaixam nas inovações recentes do mercado.

Nessa mesma linha de trabalho Barbara destaca o método agile, de auxiliar o cliente de forma imediata. Ainda que o primeiro contato não seja a solução final, o método permite que algum produto funcional seja entregue, até que a assistência seja aprimorada ao resultado final.

O método agile também foi exaltado por Lívia Tizzo, engenheira química e líder de inovação digital na Braskem. Para ela é um método que prioriza as pessoas e suas necessidades, uma tendência irreversível do mercado.

Lívia se destacou na área de inovação digital quando a empresa investiu na modernização e hoje coordena uma equipe montada especificamente para a inovação. Com muitas mulheres envolvidas nos processos, as atividades não se restringem ao aspecto tecnológicos, mas também na mudança de mindset e aplicação de design thinking.

De acordo com a engenheira, essas mudanças são muito simbólicas, já que é uma empresa antiga e que há pouco tempo não pensava em grandes inovações, por ter raízes fortes em metodologias de épocas passadas.

Isso mostra o quanto a transformação digital é inevitável, trazendo resultados em curto prazo para empresas que façam os investimentos necessários.

Já no debate após as apresentações, as engenheiras destacaram o papel da inteligência artificial, que já tem grande influência nas empresas e tende a crescer cada vez mais com o aprimoramento das técnicas de machine learning. É a automação dos computadores, que visa agilizar os processos e maximizar os resultados.

O desenvolvimento tecnológico dos últimos anos permite às empresas trabalhar com grande quantidade de dados, que as palestrantes indicaram como outra grande revolução tecnológica irreversível para os próximos anos.

 


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No segundo dia do evento “Mulheres na Energia”, o Clube Minerva abordou o futuro das energias fósseis, já que a transição para energia limpa é inevitável mas ainda levará muitos anos, e traçou o perfil atual das energias renováveis no Brasil e no mundo, com as perspectivas de substituição da matriz energética e a pressão, tanto ambiental quanto econômica, para acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias.

O futuro das energias fósseis
O cenário internacional tem a Europa como principal protagonista do projeto de substituição das energias fósseis. Priscila Moczydlower, engenheira de petróleo senior na Petrobras e diretora de sustentabilidade da SPE Brasil, trouxe dados que mostram as metas de redução do consumo das principais potências do mundo.

Com o acordo de Paris e o green deal (políticas em conjunto da União Europeia para combater o aquecimento global), o continente europeu tem a meta ambiciosa de neutralizar as emissões de carbono até 2050. A China estendeu a mesma meta para 2060.

Segundo Priscila, 65% das emissões de gases do efeito estufa vêm de combustíveis fósseis, sobretudo de transportes, geração de energia e da indústria petroquímica.

A geração de energia, de acordo com a engenheira, passa por uma fase de transição. O consumo de gás natural tem crescido nos últimos anos em substituição ao carvão. Não é o ideal, já que o gás não é uma energia limpa, porém é menos poluente que o carvão, o que já contribui com metas em curto prazo de redução da poluição.

Na indústria automobilística o futuro parece estar nos carros elétricos. É um ponto que evidencia o desequilíbrio mundial no combate ao efeito estufa, pois enquanto na Europa a tecnologia já é uma realidade, chegando a 75% do total na Noruega, os EUA ainda são resistentes, mesmo com as recentes medidas do presidente Joe Biden para impulsionar as mudanças.

Priscila chamou a atenção para problemas sociais vindos dos mercados emergentes, que influenciam na transição energética. Países como a Índia e o Brasil têm grande potencial de crescimento e para isso demandam muita energia, sem condições financeiras e tecnológicas para um investimento como o da União Europeia.

Por outro lado, os bancos e os grandes fundos de investimentos costumam dar prioridade para as chamadas empresas verdes, que já neutralizaram a emissão de carbono ou ao menos investem e apresentam metas de redução. É uma forma de incentivar e pressionar por mudanças, já que, segundo a engenheira, a transição é inevitável, a questão é a velocidade das mudanças.

Para Natália Gil, mestre em engenharia de petróleo e engenheira do núcleo de inovação aberta da Comgás, os combustíveis fósseis ainda são abundantes e muito vantajosos, do ponto de vista energético, em relação aos biocombustíveis. Por isso a transição de indústrias tem sido feita com gás natural para substituir o carvão. Mas grandes consumidores, como China e Índia, ainda têm matriz energética baseada no carvão.

As duas engenheiras concordam quanto a substituição inevitável e urgente dos combustíveis fósseis e apostam em várias frentes atuando de forma conjunta. Natália indicou a ESG, sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa. São os fatores principais para medir a sustentabilidade e o impacto socioambiental dos projetos de uma empresa. Cada vez mais as empresas vêm sendo pressionadas por consumidores e investidores para agir de forma responsável.

Novas tecnologias são a grande tendência para auxiliar o mercado a superar questões que ainda favorecem os combustíveis fósseis, como a facilidade de estoque e transporte, além da eficiência energética já mencionada. O uso de hidrogênio e as técnicas de captura e sequestro de carbono foram mencionadas por Natália como alternativas em crescimento.

A engenheira lembrou também de tecnologias indiretas, que influenciam na substituição da matriz energética. A transformação digital oferece a inteligência artificial, internet das coisas, realidade aumentada e indústria 4.0. São exemplos de como a meta de neutralizar a emissão de carbono conta com a participação de vários setores.
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Energias Renováveis no Brasil e no Mundo
Na sequência o “Mulheres na Energia” abordou as energias renováveis, com projeções nos cenários nacional e internacional. Elbia Gannoum, presidente executiva da ABEEólica – Associação Brasileira de Energia Eólica – afirmou que somos uma sociedade do petróleo, ainda nos preparando para uma transição. A economista vê um grande potencial para o Brasil e considera a matriz nacional um privilégio.

Hoje 83% da matriz brasileira é renovável e Elbia acredita que o país pode chegar a 100%. Existe uma tradição em investir nos combustíveis renováveis e nos últimos anos a energia eólica vem ganhando espaço no país. A redução do custo de produção devido às novas tecnologias é um forte atrativo.

A energia hidroelétrica ainda é a principal fonte, mas o impacto ambiental, a dificuldade e o custo de construção das usinas indica que é uma matriz saturada. A tendência é que outros recursos sejam explorados no futuro, por isso a energia eólica foi a que mais cresceu nos últimos dez anos, chegando recentemente ao maior nível de produção da história, mesmo fora do período ventos mais fortes.

Esse recorde só foi atingido devido ao país ser o sétimo do mundo em capacidade eólica instalada, com um investimento que só perde para os EUA e a China. O potencial eólico, sobretudo da região nordeste, é um dos privilégios com os quais o país pode contar.

De acordo com Elbia, as energias renováveis não competem com as fósseis. Para a economista o conceito de cooperação é mais adequado, já que a substituição é inevitável, pois não temos mais uma mudança climática, temos uma urgência climática.

Existe a pressão de governos e grupos ambientalistas, como o Greenpeace, e também a atuação do setor econômico influenciando na pressão por mudanças. Elbia lembrou em sua apresentação que se a mudança não ocorrer pelo meio ambiente, ocorrerá pelo bolso. Neste cenário inevitável, ela acredita que o Brasil tem plena condição de ser protagonista, mas o país precisa assumir essa responsabilidade.

Complementando as informações sobre a matriz energética brasileira, a engenheira eletricista Raissa Lafranque, diretora de novos negócios na EDF Renewables do Brasil, afirmou que apenas 15,4% das fontes do país não são renováveis.

Em uma apresentação focada na geração e transmissão da energia elétrica, a engenheira indicou que a distribuição da energia no Brasil pode acontecer em ambiente regulado ou livre.

O sistema regulado é o mais comum, com a rede de distribuição chegando aos consumidores e as tarifas pré-estabelecidas, trazendo mais segurança para o sistema. Porém as empresas podem comprar direto com o gerador, no ambiente livre, com uma negociação bilateral e termos específicos para cada contrato.

Essa negociação mais próxima entre consumidor e fornecedor pode ser mais um agente a influenciar na mudança da matriz energética, já que o consumidor tem mais recursos e condições de questionar a origem da energia.

Para o evento “Mulheres na Energia”, Raissa ressaltou ainda que apenas 32% das vagas do setor de energia renovável são preenchidas por mulheres. A engenheira acredita que esse número pode e deve aumentar, pois existe espaço para as mulheres. É necessário investir na formação e, retomando alguns temas abordados no evento, buscar uma rede de apoio, mentoria e referências para trabalhar no setor.

 


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Workshop: Case de DataViz na Energia – Power BI.

Para encerrar o evento “Mulheres na Energia”, a politécnica Mariana Kobayashi, coordenadora de projetos digitais na Total S.A. e mestre em energia e processos de refino, ministrou um workshop, utilizando o software Power BI, da Microsoft, para trabalhar dados, gerando resultados práticos.

O Power BI tem uma versão básica gratuita, o download está disponível neste link.

Em sua apresentação, Mariana deixou claro que saber trabalhar com dados não é uma necessidade exclusiva dos profissionais de T.I. Cada vez mais populares, os dados permeiam empresas das mais diversas áreas, auxiliando profissionais a obterem resultados melhores.

A engenheira citou a expressão ‘os dados são o novo petróleo’, explicando que a referência é feita tanto em relação ao valor e relevância, quanto pela necessidade de refinar o produto bruto.

O grande desafio dos profissionais está em trabalhar uma grande quantidade de dados gerando informações. A partir do estudo dessas informações o conhecimento adquirido pode ser aplicado, garantindo resultados e experiências profissionais.

Devido à relevância dos trabalhos com dados e a tendência irreversível de popularização da área, Mariana afirma que os profissionais são bem valorizados no mercado, pois ainda falta mão de obra especializada.

Com o workshop o Clube Minerva proporciona uma introdução a quem quiser se aprofundar no tema. O Power BI é um serviço de software, aplicativos e conectores, que trabalham para transformar um conjunto de dados em informações visuais e interativas.

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